Formação em Danças Femininas: Universo Feminino em Movimento
Kamilla Mesquita
As diversas Danças Étnicas trazem consigo movimentos repletos de simbologias e arquétipos do universo feminino. Estas danças, dentre as quais poderíamos citar: as Danças Árabes Femininas – Dança do Ventre; a Dança Indiana; a Dança Flamenca, Danças Ciganas e as Danças Afro-Brasileiras e outras têm suas origens em tempos remotos, quando não havia separação entre espetáculo e ritual. Dentro do âmbito da cultura popular, sempre existiu o intercâmbio entre tradições diversas, havendo, portanto, constantes confluências de saberes. A proposta desta Linguagem “Danças Femininas” é difundir o resgate artístico dos vínculos que estas danças mantiveram entre si, atualizados numa perspectiva contemporânea, utilizando os signos e arquétipos do feminino, presentes de maneira sincrética, dentro de várias tradições culturais.
As Danças Femininas têm como temática a própria essência do feminino, com suas diversas facetas, que percorrem as mais variadas nuances da mulher contemporânea, desde a sutileza e suavidade até a força arrebatadora de uma guerreira, sendo tais características da feminilidade relacionadas expressivamente aos movimentos corporais e a elementos e simbologias encontradas na natureza. Enfim, a vivência das Danças Étnicas de cunho feminino trazem à tona a diversidade expressiva do ser feminino e sua (re)conexão aos elementos que lhe são intrínsecos, auxiliando no processos de auto-conhecimento e desenvolvimento de uma identidade pessoal expressiva.
No âmbito da contextualização histórica, podemos dizer que este trabalho de Danças Femininas é um trabalho artístico inserido no cenário da arte Contemporânea, visto que é primordialmente centrado em pesquisas que abordam o hibridismo de linguagens; a fusão de linguagens múltiplas na construção de uma linguagem inovadora, condizente ao dinamismo caleidoscópico da contemporaneidade. Mas não poderíamos de deixar de citar suas principais influências que seriam os movimentos de Dança Moderna e Pós-Moderna que já abriram um portal de possibilidades em relação a mesclas e hibridismos dentro dos processos de criação em dança.
Dentro destes movimentos poderíamos citar alguns nomes de agentes da dança que buscaram nas Danças Étnicas elementos de suporte a serem recriados dentro de suas propostas vanguardistas de novas concepções de Dança. Como por exemplo, Ruth Sant-Dennis; Asadata Dafora Horton; Katherine Dunham; entre outros que já no início do século passado traziam referências de danças ancestrais para suas composições inovadoras.
Um outro interessante fenômeno, e já um pouco mais recente, conhecido como movimento tribalista, teve sua origem na década de 70 nos EUA. O Estilo Tribal é uma modalidade de dança que, tendo como base a dança do ventre, funde arquétipos, conceitos e movimentos de danças étnicas das mais variadas regiões, como o Flamenco, a Dança Indiana e danças folclóricas de diversas partes do Oriente, desde as tradicionais manifestações folclóricas já bem conhecidas pelas bailarinas de dança do ventre às danças tribais da África Central, chegando até mesmo às longínquas tradições das populações islâmicas do Tajisquitão.
A percurssora desta linguagem tribalista foi a bailarina morte-americana Jamila Salimpour, que ao fazer uma viagem ao Oriente, se encantou com os costumes dos povos tribais daquela região. De volta à América, Jamila resolveu inovar e mesclar à dança do ventre as demais manifestações culturais que havia conhecido em sua viagem.
Uma forte característica trazida para o Estilo Tribal das danças tribais é a coletividade. Não há performances solos no Estilo Tribal. As bailarinas, como numa tribo, celebram a vida e a dança em grupo. Dentre as várias disposições cênicas do Estilo Tribal estão a roda e a meia lua. No grande círculo, as bailarinas têm a oportunidade de se comunicarem visualmente, de dançarem umas para as outras, de manterem o vínculo que as une como trupe. Da meia lua, surgem duetos, trios, quartetos, pequenos grupos que se destacam para levar até o público esta interatividade.
Nos anos 80, novas trupes já haviam se espalhado pelos EUA. E a partir da década de 90, o Estilo Tribal, passou a demonstrar com mais força a presença da Dança Indiana e ainda mais danças folclóricas foram adaptadas ao Estilo, tudo representado de uma forma simbólica e interpretativa, sem com isso querer traduzir a realidade destas danças, já que estão totalmente fora de seu contexto original.
A Cia. Halim, de São Paulo, capital, sob direção artística da bailarina Shaide Halim, foi a pioneira no trabalho desta linguagem de Dança no Brasil. E as sementes plantadas por Shaide já começam a germinar novos frutos que aos poucos se disseminam por outros territórios.
Tive o prazer e a honra de ter sido aluna de Shaide e ter participado durante um curto período da formação da Cia Halim, e atualmente, desenvolvo em Campinas, junto ao Grupo Amaryllis de Dança Étnica Contemporânea; um trabalho com claras e nítidas influências do Estilo Tribal, mas que aos poucos vai tomando uma nova configuração.
A este trabalho, tenho chamado de Danças Femininas, que se trata de um nome bastante abrangente, mas adequado para este momento de pesquisa, no qual pretendemos é a construção de um sistema para uma linguagem de dança desenvolvida para o corpo feminino, de acordo com as suas necessidades e especificações anatômicas, e cujas matrizes de movimento sejam totalmente baseadas em dança étnicas de cunho feminino e ancestral. Neste universo repleto de hibridismos, ritmos, movimentos, sonoridades e idiomas múltiplos, o corpo feminino vai se reencontrando com a sua natureza primeira.
Ao longo da vivência destas danças, o corpo vai percebendo similaridades, características de corporeidades e padrões de movimentos que se repetem em diferentes culturas. A mulher vai reconhecendo em seu próprio corpo imagens arquetípicas que se tornam movimento. Leminiscatas, círculos, espirais e inúmeras outras formas sinuosas vão conduzindo o corpo feminino por uma viagem de volta a si mesma, a redescoberta do próprio corpo e de como ele pode se expressar no momento presente, sendo herdeiro de tantas e tantas histórias corporais do passado. Trata-se da fusão do velho e do novo para a construção daquilo que nos torna plenas no “agora”!
Metodologia – Danças Femininas
O curso de Danças Femininas tem duração mínima de 4 semestre, sendo tempo mínimo necessário para que a participante tenha contato com a corporalidade; técnica e instrumentais de criação dentro desta linguagem artística.
O Curso é dividido em quatro níveis sendo que há relação e interdependências entre cada um deles. Estes quatro momentos se dividem em:
- Primeiro Semestre: Corporalidade Feminina e Formas Simbólicas
- Segundo Semestre: Relações do Feminino em Movimento com o Tempo-Espaço
- Terceiro Semestre: O Eu-Feminino e suas Relações com o Meio
- Quarto Semestre: O Feminino e a Criação Artística
Ao Final deste processo a participante estará apta a expressar-se por meio desta linguagem artística de maneira individual e/ou grupal, por meio de processos coreográficos; improvisações coordenadas e desenvolvimento de processos criativos.
Além destes propósitos formais de capacitação artística/expressiva; o curso tem como grande objetivo o auto conhecimento e conexão com o feminino transcendente, visto que as aulas constituem-se, ao longo de todo o processo, de trabalhos físicos; criativos e meditativos.
Primeiro Semestre
Corporalidade Feminina e Formas Simbólicas
- Mãos (hastas; mudras; círculos; ondulações; dedilhados)
- Braços (posturas indianas e flamencas; espirais)
- Torso (movimentos ondulantes e batidos)
- Quadris (oitos, ondulações, batidas e vibrações)
- Pés (enraizamento, percussões)
- Giros
- Uso dos níveis Alto, Médio e Baixo
Segundo Semestre
Relações do Feminino em Movimento com o Tempo-Espaço
- Ritmos e Percussão (o manuseio de pandeiro e saggats)
- Repertório de matrizes híbridas de movimento
- Movimentos em deslocamento Espacial
- Introdução à Improvisação Coordenada
Terceiro Semestre
O Eu-Feminino e suas Relações com o Meio
- Desenvolvimento de matrizes de movimento mais elaboradas
- Improvisações Individuais
- Jogos Grupais de Improvisação
- Desenvolvimento Coreográfico a partir de Improvisação Coordenada
Quarto Semestre
O Feminino e a Criação Artística
- Desenvolvimento de Processos Criativos em Danças Femininas
- Estruturas Coreográficas
- Exercícios de Imaginação Ativa por meio da Dança
- Laboratórios de Criação
- Composição Coreográfica
Currículo Resumido de Kamilla Mesquita: Bailarina; Coreógrafa e Intérprete-Criadora; sua pesquisa tem ênfase na área de Danças de Cunho Feminino. Bacharel e Licenciada em Dança e Mestre em Artes pela Unicamp, atua como professora e diretora-artística do Grupo Amaryllis de Dança Étnica Contemporânea. (kamillamoliveira@yahoo.com.br)
Curso para Aprofundamento ou Formação de Instrutoras de Danças Femininas – Dança Integrativa ou Sagrada Feminina – Shakti Natya (CERTIFICADO DE INSTRUTORA)
1- Turma 1: aulas de treinamento livre semanais as quintas feiras das 18:00 as 19:45 -
2- Turma 2: aulas de treinamento livre semanais as quintas feiras das 20:00 as 21:45 -
3- Turma de curso intensivo:
Curso intensivo - (semi presencial) Encontros presenciais, com 30 horas cada + curso a distancia com textos, vídeo, cds – (totalizando 200 horas de curso completo) (obs: – Início em ? a distância e encontro aberto: em ?12.
*Aulas não presenciais são através de audio, vídeo, graficos e textos disponibilizados pelo site do curso através de senha recebida mensalmente logo após o pagamento do módulo. (ligue para saber mais)
Seguem abaixo alguns links de trabalhos da Bailarina Kamilla Mesquita e do Grupo Amaryllis de Dança étnica Contemporânea: (obs: estes vídeos não corresponde exatamente ao trabalho de dança realizado dentro do sistema do Shakti Vidya, no curso Shakti Natya - são apenas referências dos trabalhos desenvolvidos pela professora Kamilla Mesquita. ver também as Danças femininas étnicas no link: http://www.sabedoria-espiritualidade-feminina.shaktiyoga.org.br/videos-dancas-femininas)
Medusa
Criação e Interpretação: Kamilla Mesquita
Sinopse: Medusa era uma jovem lindíssima e muito orgulhosa de sua cabeleira. Tendo, porém ousado competir em beleza com Atena, esta lhe eriçou a cabeleira de serpentes e a transformou em Górgona, um demônio feminino que habita a escuridão, cujo olhar terrível petrifica que o mire. Narra o mito, que depois de decepada por Perseu o sangue que escorre da metade esquerda da cabeça decapitada de Medusa é veneno mortal e que o sangue que escorre da metade direita é um remédio capaz de ressuscitar os mortos. Morte e cura, beleza e horror se mesclam nesta figura mítica.
http://www.youtube.com/watch?v=fnXjdoX5NWU
Mistérios
Criação e Interpretação: Grupo Amaryllis
Sinopse: A inspiração para Mistérios está no mito de Deméter, a deusa da agricultura, cujo nome significa “Porta de Entrada para o Feminino Misterioso”. Segundo a lenda, Perséfone – filha de Zeus, e Deméter, fora raptada por Hades, rei do Mundo Subterrâneo, que a forçara a se casar com ele. Desolada, Deméter saiu em busca da filha, e em meio à dor e ao trauma emocional, Deméter retirou a sua energia vital da Terra, e veio o inverno. Quando Deméter, afinal, recuperou a filha, as colheitas voltaram, mas, como parte de um acordo entre os deuses, Perséfone seria obrigada a ficar um terço de cada ano ao lado do marido, Hades, sob a terra. Os quatro meses que Perséfone passava no Reino Subterrâneo de Hades representam o período improdutivo, logo após a colheita e no ápice do verão; o retorno dela marca o renascimento.
http://www.youtube.com/watch?v=HHMEIgy6Nr8
Ciclos: Festival de Danças Femininas
Realização: Espaço Cultural Villa D’art e Grupo Amaryllis
http://www.youtube.com/watch?v=LyS_mU6d1ak&feature=related
Coreografia ZARANDA
http://www.youtube.com/watch?v=et-oksE1IFg
SOLO – MADONA NEGRA
http://www.youtube.com/watch?v=yEQJ13u6CTE&feature=mfu_in_order&list=UL